A Importância de Ser Ernesto

Por Gilsandra Clark

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“Dizer do que é que ele não é e do que não é que ele é, é o falso; dizer do que é que ele é e do que não é que ele não é, é o verdadeiro”, assim Aristóteles define verdade. Nas palavras de Santo Agostinho, veritas est adaequatio rei et intellectus. Eis a verdade objetiva, que se pode considerar muitas vezes bem próxima à verdade do senso comum.

O senso comum, no entanto, parece ser mais resistente às intempéries do que o próprio conceito de verdade, frequentemente colocado em dúvida, e o debate sobre o conceito de verdade, ou melhor, sobre “a verdade da verdade” está definitivamente na moda neste momento de realidades virtuais e de folclóricas fake news.

Vive-se um período de surgimento de novas atualidades, potencialmente construídas de modo igualitário pelos muitos agentes responsáveis por criar informação nos dias de hoje, ou seja, qualquer pessoa com acesso à internet. O mundo aristocrático, historicamente formador do discurso oficial, encontra-se em seus estertores, e não resta alternativa senão aprender a conviver com uma verdade que não mais será necessariamente formatada pelas chamadas elites intelectuais ou culturais.

Há, agora, uma nova academia, uma nova imprensa e uma nova historiografia compostas e produzidas por um sem-número de indivíduos. Esse novo momento, como sempre ocorre em fases de grande transição, causa perplexidade, mas pode também resultar numa síntese capaz de trazer novas oportunidades e soluções, como se pode notar na atual conjuntura política brasileira.

De fato, esse movimento de “política sem partido” tem significado a vitória do senso comum. Trata-se do momento em que os antigos axiomas, discursos e ideologias se viram obrigados a ceder espaço à verdade experimentada no dia-a-dia, a qual a maioria dos eleitores brasileiros recusou contestar.

E o que diz o senso comum no Brasil de hoje? Diz que a estrutura política, há muito incapaz de atender às legítimas aspirações da sociedade, atingiram grau inédito de inépcia e corrupção, pelo que se tornava fundamental operar uma renovação na classe política e na organização interna do governo. Diz que não se pode mais sair às ruas (ou ficar em casa…) sem correr risco cada vez maior de sofrer uma violência, em razão da praticamente inexistente política de segurança pública. Diz que crianças e jovens recebem um ensino de nível insuficiente, para não dizer cada vez pior. Diz que devem ser prezados conceitos morais como honestidade, sem o que não pode haver vida civilizada. Diz que o Brasil é, de fato, tudo o que vivem e conhecem, a “terra adorada” que não gostariam de deixar em busca de um futuro menos incerto no exílio, o país que, lhes parece, e consideradas todas as suas potencialidades, “tem tudo para dar certo”. Diz que não há mal algum, ao contrário, pode ser muito bacana cantar o hino nacional nas escolas.

E foi o senso comum que elegeu Bolsonaro, que apoia Sérgio Moro, que quer escolas de qualidade, que quer poder sair de casa sem a expectativa de ser assaltado ou assassinado, que sabe que o Brasil é seu lar, e que não há maior tristeza do que a persistente miséria em país que teria todas as condições de ser próspero.

Em consequência, é o mesmo espírito que pede por um Itamaraty que se possa lançar a novas alturas e contribuir decisivamente para definir e defender o interesse nacional no cenário das relações internacionais e trazer riqueza e desenvolvimento para os brasileiros. O senso comum e a verdade objetiva dizem que se faz necessário um Ministro corajoso, competente e determinado à frente da Casa de Rio Branco, alguém que tenha a ousadia de esperar um grande Brasil, um diplomata que sinta muito orgulho de ser patriota.

* Metafísica, livro Gama, cap. 7

Imagem – Pedro Bruno, Pátria (1918), Museu da República, Rio de Janeiro.

As opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade da autora, não coincidindo necessariamente com as posições do órgão público cujos quadros a autora integra nem de qualquer órgão do governo brasileiro.

O País Cordial

Por Gilsandra Clark

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Com inaudito interesse de parte da opinião pública e da imprensa brasileira, discute-se a política externa do próximo governo. Nesse novo debate, porém, evidencia-se o espectro de velhos mitos influenciando palpites e convicções.

O mais antigo mito brasileiro, na verdade, não se referia ao Brasil mas, paradoxalmente, já discutia sua posição no mundo. Em 1325, a carta náutica do genovês Angelino Dulcert trazia representada, pela primeira vez, a Ilha do Brasil, a qual, com diferentes grafias, terá sua presença confirmada por diversos mapas até a segunda metade do século XIX. Ao seguir as coordenadas informadas por Dulcert, o navegador aportaria naquela terra misteriosa, desde que a encontrasse no único dia em que se tornava visível, uma vez a cada sete anos, de acordo com a lenda.

Ainda que os pesquisadores concordem que essa ilha não corresponderia a nosso país tropical, sua existência imaginária certamente contribuiu para disseminar a concepção da insularidade das genuínas terras brasileiras, a autêntica Ilha de Vera Cruz de Caminha. A geografia mais comumente atribuída a esse território descrevia uma ilha bordeada pelo Atlântico, pelo Amazonas-Madeira-Guaporé e pelo Prata-Paraguai. Menções à Ilha-Brasil podem ser encontradas até o final do século XIX, tendo sido tão costumeiras e frequentes que passaram a constituir verdadeiro mito propagado por historiadores de diversas nacionalidades.

Sob o olhar do início do século XXI, podem parecer risíveis a Ilha do Brasil da Baixa Idade Média ou aquela dos primeiros séculos após a chegada dos portugueses ao Brasil. Em seu tempo, contudo, eram considerada tão reais quanto qualquer terreno hoje cartografado, e isso porque a visão de mundo pode variar grandemente em função da orientação cognitiva e do conjunto de conhecimento de uma sociedade.

Por essa razão, e considerando o incessante fluir histórico, não é difícil supor que agora mesmo, talvez, vejamos verdades onde não há mais do que engano ou ilusão, e que outras lendas, bem menos inócuas do que o mito da Ilha-Brasil, ainda possam embaraçar uma melhor compreensão da História e da sociedade brasileiras e, inclusive, prejudicar a elaboração de uma política de inserção internacional do Brasil.

Entre os grandes mitos nacionais ainda vivos, está a ideia do homem cordial, por décadas considerada possivelmente a mais bem-acabada síntese da formação e do caráter do homem brasileiro e de sua atuação na coletividade. Com o tempo, o conceito desenvolvido por Sérgio Buarque de Holanda viu-se contestado pela historiografia de fundo marxista, para a qual essa concepção constitui apenas mais um disfarce para ocultar o conflito e as verdadeiras contradições materiais da sociedade brasileira.

Curiosamente, essa mesma historiografia que se opõe à visão do homem cordial parece enaltecer algo que se poderia conceituar como o país cordial. De fato, apesar das críticas, por vezes ferozes, contra o conceito elaborado pelo historiador paulista, intelectuais repetem sem cessar verdades axiomáticas e imutáveis a respeito da atuação internacional brasileira, a qual, em resumo, deverá pautar-se, digamos assim, por um comportamento afável, simpático, caloroso, reforçado por sinais de amizade indiscriminada e universal.

Qualquer momento histórico em que esse padrão não se tenha repetido tornou-se alvo de “esquecimento”, quando não de zombaria ou recriminação. Os exemplos são muitos e, entre alguns dos casos mais paradigmáticos, podem-se citar as Guerras de Independência, a Guerra do Paraguai e a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, especialmente o envio de tropas para combate direto na Europa. Tais eventos terminam por serem classificados ora como acontecimentos de menor importância, ora como graves equívocos de que se envergonhar, pois, como disse Sérgio Buarque de Holanda, ”a contribuição brasileira para a civilização será o homem cordial”.*

Quando o governo eleito aventa mudanças de rumo de política externa que envolveriam possíveis conflitos, há uma insurgência da mídia, de políticos e de acadêmicos contra essa decisão que representaria um ataque à ideia do mítico país cordial chamado Brasil. E gritam todos: “Anátema!” Em vez de lançarem-se ao debate sobre interesses estratégicos e sobre um projeto de inserção futura do Brasil no cenário global, apenas repetem que esse ou aquele ator internacional será melindrado por uma revisão de prioridades da parte brasileira, o que, consideram, deveria ser argumento suficiente para encerrar a questão.

“Deitado em berço esplêndido”, em sua posição geográfica quase insular, afastado dos vizinhos por fronteiras mormente despopuladas e distante dos principais centros políticos internacionais, o Brasil parece desconhecer que o mundo das relações internacionais não se constrói apenas sobre acordos, gentilezas e quadros legais ou normativos, mas também sobre dissenso, força e poder. A ideia, certamente, não é buscar o conflito, tampouco deverá ser evitá-lo a custo do comprometimento radical de estratégias de longo prazo, o que poderia vir a significar, por exemplo, estar relegado a uma condição permanente de subdesenvolvimento social e econômico.

Assim como o contrário de preparar-se para a guerra não pode ser um desarmamento irresponsável, o oposto de embarcar num conflito comercial não pode ser reduzir toda a política externa a trabalhar para a venda de um único produto, como foi o caso do café na República Velha. O Brasil é muito maior do que isso, e não é assim que se estruturam as relações exteriores de um país. O quadro reveste-se de complexidade ímpar, os fatores são múltiplos e, por vezes, contraditórios. Não se faz política externa sem um profundo conhecimento dos diversos atores internacionais e de seu próprio interesse como nação. Nesse sentido, parece de bom alvitre relembrar Sun Tzu: “ Se você conhece o inimigo e conhece a si mesmo, não precisa temer o resultado de cem batalhas. Se você se conhece mas não conhece o inimigo, para cada vitória ganha sofrerá também uma derrota. Se você não conhece nem o inimigo nem a si mesmo, perderá todas as batalhas.” **

A possibilidade de transferência da Embaixada do Brasil para Jerusalém não pode ser decidida inopinadamente, tampouco pode ser desconsiderada apenas em razão da venda de aves para países árabes. Esse comércio reveste-se de grande relevância, mas uma alteração de tal monta constituiria operação geopolítica tão significativa e multifacetada que não conviria ser decidida apenas em razão das consequências mais imediatas ou mais evidentes. O mesmo valeria, ademais, para considerações sobre a entrada do Brasil para a OTAN, o que, aliás, seguramente deveria preceder uma eventual mudança da Embaixada em Israel.

Do ponto de vista nacional, por sua vez, nunca de fato houve grande contestação quanto à ideia de perseguir a entrada do Brasil para o Conselho de Segurança das Nações Unidas, propalada por mais de duas décadas. Amplos esforços diplomáticos foram empregados para esse fim e, pela mesma razão, até mesmo a estrutura interna do Itamaraty viu-se alterada, com a abertura de postos em numerosos países, antes atendidos por Embaixadas cumulativas. Mesmo considerando-se válido todo esse empreendimento, em última análise, além da dimensão territorial e populacional, qual o principal argumento para a entrada do Brasil no Conselho de Segurança? Ora, somos um país cordial! Todos gostam de nós, somos amigos de todos, nunca brigamos com ninguém. “Ah, entendi”, diz cada uma das potências nucleares.

Para um observador externo, porém, talvez a opção de transferir a Embaixada para Jerusalém, ainda que mais conflituosa, pareça mais racional e faça mais sentido em termos de política internacional do que a ambição brasileira de entrar para o Conselho como membro permanente. Diga-se de passagem que, sob a pressão internacional para aderir ao Tratado de Não Proliferação (sobretudo dos Estados Unidos, que ameaçavam com retaliações comerciais), cedeu o Brasil, não cedeu a Índia, hoje o 9º maior parceiro comercial dos Estados Unidos.

A conveniência de cada uma dessas opções geopolíticas requer estudo estratégico cuidadoso. Não são questões que possam ser decididas apenas por parecer ser boas ideias, mas podem constituir alternativas válidas, desde que baseadas num desenho mais amplo do país que se busca alcançar, do país que o Brasil “quer ser quando crescer”. A discussão deve ser sobre um projeto de nação, sem ceder a falaciosos dogmas e mitos que terminam por apartar o país do verdadeiro jogo de política internacional, sempre diminuindo sua capacidade de atuação e limitando ganhos internos. Não conviria ao Brasil, agora no século XXI, voltar a ser uma ilha fantasiosa em algum lugar do Atlântico.

*Raízes do Brasil, Ed. José Olympio, São Paulo

** A Arte da Guerra, Bertrand Editora, Lisboa, 2009

Imagem: Adriaen Collaert e Marten de Vos – America (c.1600), Rijksmuseum, Amsterdam

As opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade da autora, não coincidindo necessariamente com as posições do órgão público cujos quadros a autora integra nem de qualquer órgão do governo brasileiro.

Maremoto ou Tsunami? *

Por Gilsandra Clark

Nos dias anteriores às votações do primeiro turno, para justificar o que a imprensa considerava um súbito crescimento das intenções de voto em Bolsonaro, começou-se a falar em “onda conservadora”, afirmação impressionista, cujo único intuito parecia ser aquele de justificar o porquê das pesquisas políticas não terem indicado dados mais acurados. “Foi a onda!”  “A onda veio muito rápido, e minhas pesquisas ficaram para trás!” E pior! Não foi qualquer onda, mas uma onda com qualificativos: foi uma “onda conservadora”! Essa “onda conservadora”, há de se imaginar, deve operar por mecânica ainda mais misteriosa, inescrutável e imprevisível, do que uma onda qualquer.

Após a liberação dos resultados, ainda no domingo, já não se falava apenas em “onda”. Agora, segundo a imprensa, e os resultados das urnas comprovavam, assistia-se a um “tsunami”, única imagem que aparentava ser suficiente para definir a extensiva e extraordinária materialização em votos do apoio ao capitão presidenciável e a seu partido. Ocorre que “tsunami” já designa uma onda. Uma onda de grande magnitude, usualmente causada por abalo sísmico, e que não se resume ao poético e normal fluxo e refluxo do mar observado da praia. Bolsonaro sempre foi “tsunami”, desde o início da campanha.

O curioso é que, embora o candidato seja “tsunami”, nunca foi “maremoto”. E isso porque as palavras são entidades que têm vida e evolução própria, estão submetidas a todo tipo de influência social, cultural, religiosa e política e, às vezes, também morrem. No mundo de hoje, onde as informações e o contato com as mais diferentes nações estão à distância da mais próxima conexão à Internet, os idiomas mesclam-se cada vez mais, em função do poder de influência e da audiência de quem transmite a mensagem, ou por questões etimológicas ou meramente estilísticas.

No caso do hoje esquecido “maremoto”, o vocábulo vive seus estertores desde o trágico, mortal e devastador tsunami de 2004, quando a mídia adotou de forma unânime o nome de origem japonesa, provavelmente porque boa parte das informações sobre a calamidade chegavam via correspondentes internacionais. Num dia não muito distante, os livros de história brasileiros não mais farão referência, por exemplo, ao “maremoto” que atingiu Lisboa em 1755, com ondas estimadas em vinte metros de altura, mas sim ao “tsunami” que arrasou Lisboa.

Ainda mais notável que esse processo direto de assimilação é a assunção de novos significados para uma palavra, simplesmente por inexistir vocábulo pronto para exprimir novidades radicais. Nesses casos, quando se depara com uma ocorrência única ou surpreendente, há a tentação de fazer uso de conceitos ou eventos naturais, talvez por considerar-se que acontecimentos singulares de grande repercussão normalmente só encontram equivalência no mundo dos fenômenos físicos. Daí vêm a “onda” e o “tsunami” de Bolsonaro.

Esse tipo de substituição, adaptação, ou mesmo a alteração de significado, não é incomum. Sucedeu, por exemplo, em 1688, quando o Rei Jaime II da Inglaterra foi deposto por parlamentares ingleses que entregaram o trono ao neerlandês Guilherme III, Príncipe de Orange. Até aquele momento histórico, a palavra “revolução” era utilizada para referir-se às revoluções das órbitas celestes, como definidas por Copérnico. O uso do vocábulo com sentido político, como conhecemos hoje, emerge inequivocamente apenas com a Revolução Gloriosa. Antes, revolta era o termo utilizado, e mesmo a insurreição puritana que culminou na execução de Carlos I, na Inglaterra, foi conceituada com Guerra Civil, não revolução.  O nome “revolução” seria consolidado nessa nova acepção, pouco menos de um século depois, desta vez na França, quando Luís XVI, ao ser despertado e informado sobre a tomada da Bastilha, pergunta a La Rochefoucauld-Lancourt, seu camareiro-mor: “Mais c’est une révolte?” E responde La Rochefoucauld: “ Non, Sire, c’est une révolution!” **

Ao longo do século XIX, o marxismo tratará de apropriar-se do termo e de definir o que é ou não uma revolução. A Revolução Gloriosa, por exemplo, e segundo os ideólogos comunistas, não seria uma revolução estritamente falando porque não houve mudança de propriedade dos meios de produção. Haveria ainda uma segunda razão, similarmente grave, para que não se usasse a palavra revolução: a característica não violenta desse evento, inclusive por vezes chamado de “revolução sem sangue”, o que, do ponto de vista tradicional marxista, chega a ser uma contradição em termos. “Sem sangue? Como assim sem sangue?” Pois é. Sem sangue. Em resumo, os marxistas não creem que uma revolução seja possível sem luta armada ou sem que se tenha atingido a hegemonia de pensamento, nos termos definidos por Gramsci.

Curiosamente, no entanto, a força do indivíduo, dos fatos singulares e das mentalidades, elementos desprezados pela historiografia materialista, teima em provocar mudanças radicais e imprevistas. Exceto aqueles que insistem em manter os olhos fechados, os demais assistem, sim, a uma verdadeira revolução, entendida como uma mudança única que poderá levar à irreversível criação de uma ordem política fundamentalmente nova. Há décadas, ou desde sempre, fala-se que nada vai mudar, que o povo nunca vai se mobilizar por questões políticas fundamentais, que nunca será possível alterar significativamente a composição do Congresso, que jamais nos livraremos dos velhos coronéis, que é impossível fazer campanha política sem muito dinheiro, sem arranjos espúrios, sem realizar concessões e sem abrir mão de propostas e de princípios morais e éticos. Infelizmente, para os céticos, a verdade não é meramente uma questão política. Negar o senso comum, negar os fatos, negar a força do indivíduo? Nenhum regime foi capaz de atingir integralmente esse glorioso ápice de aniquilação da vontade e do espírito humano.  

Muitas vezes mantemos aspirações por mudanças, superação e melhorias para todos, mas num ambiente eticamente e ideologicamente conturbado como o Brasil, esse tipo de ideal tornou-se alvo de desconfiança ou zombaria. Até que a vontade de mudança finalmente encontre espaço para se disseminar, e o senso comum prevaleça, pode ser gerado um movimento irrefreável, como o que assistimos nos últimos meses e semanas. Essa mobilização traz a possibilidade de transformações políticas, econômicas e sociais radicais, a possibilidade de finalmente superar a visão do Brasil como mera colônia de exploração, a possibilidade de que cada um possa exprimir diferença e pensamento, sem que todos precisem abrir mão das liberdades civis. Este é o momento que vive o Brasil, o momento da vitória do senso comum. Perdoem-me os marxistas, mas o movimento que Bolsonaro representa não é “onda”, nem “maremoto”. É revolução.

* Publicado originalmente em Metapoliticabrasil.org, em 13 de outubro de 2018

**ARENDT, Hanna – Da Revolução, Ed. Ática/UnB, 2a edição, São Paulo, 1990

Imagem: Thomas Digges –  A Perfit Description of the Caelestiall Orbes according to the most aunciente doctrine of the Pythagoreans, latelye revived by Copernicus and by Geometricall Demonstrations approved.

As opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade da autora, não coincidindo necessariamente com as posições do órgão público cujos quadros a autora integra nem de qualquer órgão do governo brasileiro.

Do Alto do Hôtel de Ville

Por Gilsandra Clark

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Ideia incessantemente repetida, propaga-se que o PT deveria realizar uma “autocrítica”, decisão que habilitaria o Partido a não se envergonhar de seus muitos mal-feitos pregressos. Seria como a redenção obtida após a confissão do penitente.

Aqueles que chamam por esse auto-de-fé, parecem desconhecer que o PT professa religião segundo a qual essa “autocrítica” (leia-se: ‘mea culpa’) seria atitude de absoluta incoerência.

E continua-se a conclamar o Partido a reconhecer falhas, a se envergonhar dos casos de corrupção e a admitir falsidades, quando, na verdade, nenhum desses fatores constituiria um problema dentro da lógica da ideologia marxista. Não seriam mentiras, apenas estratégia. Todas as armas poderiam e deveriam ser utilizadas para a obtenção do objetivo final, a conquista do poder pela classe operária. Conceitos morais burgueses não representariam impedimentos, mas obstáculos a superar. Seguindo esse raciocínio, em vez de esperar que os petistas venham a alterar sua visão de mundo, seria preferível tentar compreender que, no mundo ideal, permanecem fiéis a seu objetivo último, logo são sinceros. Sob sua ótica, classificar como fascistas os eleitores de Bolsonaro constitui decisão tática e independe de qualquer realidade fatual. Por sua vez, aqueles que, iludidos por suas concepções burguesas, os classificam como ladrões e corruptos demonstram tão-somente desconhecimento de causa.

No atual momento de paroxismo, em que o PT parece se encontrar na iminência de perder as próximas eleições, os dirigentes do Partido têm exercitado ao máximo essa guerrilha de relativização da verdade, grande baluarte do marxismo cultural. Disseminam-se pretensas “realidades indiscutíveis”, entre as quais: que o fato de votar em Bolsonaro seja unicamente um voto anti-PT, que se vota em Bolsonaro “apesar” de Bolsonaro, que Bolsonaro surgiu em razão dos “erros” cometidos pelo PT. Semi-verdades plausíveis constroem muitas das imposturas mais eficazes e enganam até mesmo aqueles que a elas se deveriam opor.

Obviamente, há revolta contra o PT, mas há também pessoas que simplesmente têm ideias e aspirações diversas daquelas propaladas pelo Partido dos Trabalhadores e que não votariam nesse partido mesmo que este não houvesse “errado”. Muitas dessas pessoas votam em Bolsonaro “por causa” de Bolsonaro, não “apesar” de Bolsonaro, e sua extraordinária aceitação significa apenas a busca por alternativas que melhor representem a maioria do eleitorado brasileiro. Acreditar nessas meias verdades remete a considerar o PT como única opção válida, a desconsiderar méritos do novo candidato e, em resumo, a desqualificar o sistema democrático, que significa não apenas a eleição dos governantes pelo povo, como também a alternância de poder. Não há alternância de poder sob a ditadura do proletariado. Mais uma vez, os petistas seriam coerentes.

Mas (e o enredo nem sempre é tão previsível como supõe o determinismo marxista), eis que o PT finalmente erra. Ao juntar-se ao coro que entoa “minha bandeira jamais será vermelha”, destrói sua história e humilha seus partidários. Erra, não porque teria perdido a coerência estratégica, mas por levá-la demasiadamente a sério. Num primeiro instante, a decisão de mudar as cores durante a campanha pareceu um xeque-mate de marketing no adversário. “E agora? Como os adeptos de Bolsonaro poderão se diferenciar dos petistas?” O plano era que, se todos fossem confundidos, melhor para o PT. Após o momento inicial, porém, começou a ficar evidente que essa manobra não tinha um público alvo, pois os mais fervorosos partidários de Bolsonaro, mesmo aqueles recém-convertidos, não iriam mudar de opinião ou serem enganados assim tão facilmente. Quem, então, seria atingido pela mudança, além dos próprios petistas?

Ao tratar o abandono de suas cores tradicionais como mais uma “verdade relativa”, e novamente sendo coerente com uma concepção estritamente “materialista-bolivariana”, o PT demonstrou descaso pelo aspecto de sua representação simbólica, algo que provavelmente consideram menos importante na “caminhada rumo ao socialismo”.

Talvez porque Cuba e Venezuela, seus principais aliados, tenham mantido suas bandeiras nacionais, os dirigentes petistas imaginaram que pudessem desprezar todo o seu passado sem que houvesse qualquer repercussão. Curiosamente, ignoraram exemplo do próprio Marx, o qual, após a experiência da Comuna de Paris, descreve arrebatado sua percepção de que “o velho mundo se retorceu em convulsões de raiva ante ao espetáculo da Bandeira Vermelha, símbolo da República do Trabalho, tremulando sobre o Hôtel de Ville.”* Será provavelmente ainda mais decepcionante para os petistas mais fervorosos ver desdenhada a cândida história recontada por Marisa Letícia: “A primeira bandeira do PT, fui eu que fiz. Eu tinha um tecido vermelho, italiano, um recorte guardado há muito tempo. Costurei a estrela branca no fundo vermelho. Ficou lindo. Minha casa era o centro. Foi assim que começou o PT.**

Um símbolo é mais do que um mero sinal que alguém inventa e depois descarta quando der vontade. O símbolo identifica-se com os níveis mais profundos da própria realidade que pretende representar, fato que lhe confere seu poder reverencial e sagrado, especialmente quando esse símbolo remete à ideia de fundação, de axis mundi.

Ao depreciar sua bandeira, o Partido dos Trabalhadores destrói sua própria essência. Ao ignorar o aspecto transcendental da experiência humana, pode até se julgar coerente, mas não faz mais que finalmente evidenciar a todos, inclusive a seus partidários, a incompletude de sua verdade.


* A Guerra Civil na França, Boitempo Editorial
** “Dona Marisa: Costurei a Primeira Bandeira do PT”, entrevista concedida em 09/08/2002, site oficial do PT.

Imagem: Paris Incendié (1871) – Numa Fils, Saint-Denis, Musée d’art e d’histoire

As opiniões aqui expressas são da inteira responsabilidade da autora, não coincidindo necessariamente com as posições do órgão público cujos quadros a autora integra nem de qualquer órgão do governo brasileiro.